29 de mar. de 2010

COMO DIZ A MÚSICA DO CHICO BUARQUE


















Como diz a música de Chico Buarque: “Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã...”. Assim acontecia com Francisco, que era sacudido às seis horas da manhã, exatamente na hora que, numa sincronia perfeita, tocava o despertador e ele se perguntava: “Por que ela me sacode se sabe que tem o despertador?” Mas ele ainda assim levantava calmo e arriscava um “Bom dia, amor!”. E diferente do que diz na mesma música, do mesmo compositor: “Me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã...” Não tinha sorriso, muito menos beijo de hortelã; era uma cara enfezada, um cabelo desgrenhado, o cheiro de café vindo da cozinha e ela falando:
- Anda Francisco! Homem lerdo... Vai se atrasar, criatura!
Francisco e Janilda moravam numa casa boa, casa própria, que ele conseguiu financiar e se orgulhava muito disso. Sonhava em ter filhos, mas Janilda não quis, não gostava de crianças, então Francisco se contentou com o Maroto, um cachorrinho.
Ele nunca permitiu que seu amor trabalhasse, deu a ela uma vida de princesa, apesar do adjetivo não condizer muito com o seu comportamento.
Quando Francisco se apaixonou por Janilda, todo mundo se revoltou. Dos familiares aos amigos de trabalho, todos tentaram abrir seus olhos, que não só estavam fechados, como pareciam estar costurados.
Na fase de namoro, ele a apresentava a todos como “meu docinho”, mas ela não desamarrava a cara, cumprimentava as pessoas com um aperto de mão, esboçava um leve sorriso e não dava uma palavra. Para tudo que ele dizia e pedia sua opinião, ela respondia levantando os ombros como quem diz: “Por mim, tanto faz...”.
Era difícil, mas Francisco estava amando, tanto que casou com seu docinho e viveram vários anos juntos.
Francisco mudou muito nesse tempo, esqueceu de seus discos do Chico, seus livros, seus amigos, porque Janilda não gostava. Parou de usar seu perfume predileto porque Janilda tinha alergia, parou de tocar violão porque Janilda tinha enxaqueca. Francisco se acomodou, estava bem. Vivendo com a pessoa que amava, tinha sua casa, seu carro, seu cachorro, lidava bem com o “gênio forte” da esposa e não precisava de mais nada. Às vezes, perdia o sono durante a madrugada e ficava observando Janilda dormir. Ela não era uma mulher bonita: baixinha, entroncadinha, cabelo sempre preso... Uma mulher “compacta”, armarinho embutido. Francisco suspirava, olhava e pensava: “Como amo essa mulher...”. E sentia um aperto no coração, algo que incomodava, mas que para ele era a dor de tanto amar.
Ninguém entendia, mas Francisco matava e morria por ela. E como diz outra música, também de Chico: “Como fui levando, não sei lhe explicar. Fui assim levando ele a me levar”, Janilda fazia o que queria de Francisco, e assim iam levando a vida; ela imperando e ele sob o efeito do feitiço, um torpor, que ele chamava de amor.
Só que naquela madrugada, antes do despertador tocar, Francisco perdeu o sono, sentou na beira da cama e começou seu ritual, de observar Janilda. Mas seus pensamentos começaram a desviar e no lugar de “Ah, como amo essa mulher!”, ele pensava: “Nossa, como Berenice é doce, simpática... Que secretária eficiente... E é tão bonita!” e “Credo, como Janilda ronca,deve ser por isso que acordo toda madrugada...”.
E naquela manhã, depois de tomar seu café, dentro do carro, a caminho do trabalho, sentiu como se uma bigorna tivesse caído sobre sua cabeça. Só deu tempo de pensar: “Eu não amo mais Janilda!”, sentiu novamente o aperto no coração e acordou no hospital.
A sua direita estava Janilda, brava, e foi logo dizendo:
- Ta vendo, teve um infarto! Bem que eu dizia pra você não fumar... Agora só vai dar trabalho!
A sua esquerda estava Berenice, sua secretária, segurando sua mão e sorrindo:
- Está tudo bem, seu Francisco, o pior já passou. Estarei aqui para o que for preciso.
Janilda virou as costas e saiu dizendo:
- É bom mesmo que tenha alguém pra o que for preciso, porque estou indo pra casa, odeio hospital!
Francisco ficou uma semana no hospital, na companhia de Berenice. Às vezes uma enfermeira avisava que Janilda havia telefonado para saber quando ele teria alta, mas para Francisco isso já nem fazia mais diferença.
No dia de sua alta, voltou para casa... E mais uma vez, um pedaço de outra música de Chico Buarque: “Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar. Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar”. E esse jeito mais quente não foi de paixão, mas de revanche.
Pegou seus livros, seus discos, seu cachorro e antes de sair, encheu-se do seu perfume predileto e ficou olhando para Janilda. A única coisa que ela disse foi:
- Você sabe que tenho alergia...
E Francisco, com o peito estufado, respondeu com um sorriso irônico:
- Berenice adora!
E lá se foi Francisco, deixou Janilda, casa, trabalho e foi morar no campo com Berenice. Abriram uma pousada, tiveram três filhos e Francisco começou a sentir o amor jorrar do seu coração. Descobriu que amar não dói.













27 de mar. de 2010

Distância Enorme



















A distância sempre existiu e sempre foi enorme.
Nasci com ela cravada no peito e a chamei de "vazio".
Por várias vidas busquei, nas mais diversas formas...
Encontrei as mais sábias palavras, os mais doces sorrisos, os mais belos lugares, a melodia perfeita,mas ainda assim a sentia, corroendo-me as entranhas.
Procurei também no lado escuro, nas fendas, nas pontas que machucam, nos gritos estridentes, nas palavras que entristecem, nas visões dilacerantes...difícil.
Lutei com o vazio, por momentos fui iludida e me iludi, jurei ter encontrado a cura, mas a distância voltava e marcava presença. Faltava um pedaço de mim.
Ah, pedaço de mim! Que meu suspiro é por ti, mas é pela metade...
Que meu coração bate, mas bate pesado...
E o meu olhar vai com você, porque te olho por onde quer que vá.

Quem me Dera!
















Quem me dera! Mais uma vez e todo dia, ler nos teus olhos essa cor poesia.

Quem me dera,a todo instante,respirar tua essência e não obstante...

Se eu pudesse,todo dia,quem me dera!

Poros,fios de cabelo,célula.

Ah,se eu pudesse,todo dia...

Quem me dera!

Eis Uma Estrela. Brilha!


















Brilha pequena, que o brilho revela tua existência.

O que enxerga nessa escuridão? Não és cadente, porque está aí e vejo.É alma pura, estrela verdadeira...

Então brilha, ri-se da vida, que o som de seu sorriso é música.

Brilha entre o que machuca e o que cega, brilha na dor e no amor diferente.

Eis a vida. Brilha!

26 de mar. de 2010

Que Assim Seja


















Sabe-se que entre brumas e sonhos,existem as mensagens soltas,vagando por entrelinhas...

Entre laços,nós e amarras,sabe-se que existe a bruma e os sonhos.Que assim seja.

Que sonhe nas entrelinhas,que vague por entre a bruma,que solte as amarras e desate os nós.

E que assim seja.

Metamorfose
























Foi numa daquelas épocas de férias, que a gente passa o mês inteiro na casa da avó e faz uma porção de descobertas...Foi naquele mês que descobri, em meio a cheiro de bolo no forno e fruta colhida no pé, que eu finalmente estava virando “mocinha”.
Descobri que minha avó já não dormia mais na mesma cama com o meu avô.Descobri que aquele cheiro amargo que eu sentia quando sentava no colo dele, era de um talco de enxofre que ele passava após o banho.Descobri que minha avó nunca suportou aquele cheiro, mas mesmo assim, ele continuava usando.
Descobri um casulo grudado na maior árvore do quintal e todas as tardes, quando o sol estava se pondo, eu deitava no chão e perdia a noção do tempo observando aquela metamorfose.
Descobri porque aquela minha tia solteirona, que nunca fez questão de sair da casa dos meus avós, não saia da casa da vizinha, também solteirona.
Descobri que era do coentro aquele gosto estranho que eu sentia quando comia o peixe que vovó fazia.Mas mesmo assim eu continuava comendo, para não deixa-la triste.
Descobri que, todas as noites, quando minha avó pegava o terço e ia deitar, na verdade não passava a noite inteira rezando como eu imaginava.Na primeira “Ave Maria” ela caia no sono.E na manhã seguinte ainda dizia: “Não dormi nada essa noite!”.
Descobri que meu avô, proibido de comer sal por causa da pressão alta, tinha um queijo escondido em seu guarda roupa e ainda tomava uma pinguinha na mercearia do seu João Almeida.
Descobri que minha mãe foi apaixonada pelo careca do supermercado, mas a Rosângela, sua melhor amiga, acabou se casando com ele.
Descobri que era uma delícia tomar uns bons goles de vinho tinto e sentir aquele calor gostoso pelo corpo.
Descobri que, com todos os defeitos e qualidades, eu amava meus avós mais do que nunca.
E naquela tarde, quando finalmente a borboleta saiu do casulo, descobri que minha calcinha estava suja de sangue.
O Aniversário
























Com toda a pompa e circunstância, seria realizada a tão esperada festa.

Uma legião de pessoas se desdobrava com os preparativos.Os celulares não paravam de tocar, atrapalhando a afinação dos instrumentos da orquestra que embalaria a noite dos convidados.

O Jardim da casa já estava devidamente enfeitado:flores,laços e muito brilho.

Na cozinha, a mistura de aromas, as panelas fumegando, os cristais e os talheres de prata...Os guardanapos de puro algodão...

Seguranças de dois metros de altura por um de largura impediam que a imprensa tivesse acesso ao interior da casa, mas os flashes no portão não paravam de pipocar.

Em seus carros importados, chegavam os primeiros convidados.

Alheia a movimentação dos cabeleireiros, que tentavam imortalizar seus cachos, a aniversariante, com um semblante não muito amigável, vez ou outra suspirava profundamente e chorava baixinho.

A festa foi um sucesso e na capa da revista rendeu um destaque:


“Faz aniversário a Poodle da Socialite!”.



14 de ago. de 2008


Não Encaixa


E se eu fosse diferente?

E se eu fosse igual e tudo ao meu redor mudasse?

Não sou desse mundo... Já tentei, mas não encaixa.



É FRIO,OU ARREPIO?



É frio, ou arrepio?
O café ficou fraco.
E o último cigarro do maço ainda queria ser light...

Para Inspirar a Minha Mãe



Diga à minha mãe amada,

que mando um beijo grandão!

E junto desse recado

receita de inspiração:

Coloque na mão uma vara

na cabeça um chapéu...

e descubra onde existe

um rio do tamanho do céu!!

Nada mais infalível,

para essa mulher se inspirar

não são flores nem são livros...

Só um canto pra pescar!

Épocas



Houve uma época que "sentir um oco",era fome...

A ansiedade me corroía só alguns dias antes do Natal.

Transformava o tédio em diversão.

Olhava o céu e moldava nuvens.

22 de jul. de 2008

Mármore Rosa Por entre caixas, sacolas, pilhas de livros, Muriel acordou assustada, não reconhecia o local onde estava. Virou de bruços, fechou os olhos e tentou adormecer novamente, julgou estar sonhando. Mas o aviso de mensagem no celular a fez despertar realmente e lembrar que estava em sua casa nova. Olhou a garrafa de vinho ao lado da cama, as duas taças, sorriu...
Na mensagem, um lembrete: “Você esqueceu seu anel na galeria! Onde está com a cabeça?”. Era seu amigo Jorge.
E o que importava o anel, uma aliança que ela teimava em usar, mas que já não tinha mais significado. Ela já não estava mais aliada a nada.
Sentou na cama, observou a luz do sol querendo entrar. Reparou em como tudo naquele quarto era perfeito: as janelas, com vitrais e não simplesmente vidraças, formando desenhos de lírios vermelhos e os detalhes esculpidos na madeira rústica da porta, a cor da parede, o lustre abaloado...
Sentiu a cabeça pesar, o efeito do vinho. Sentiu um arrepio a lhe percorrer a espinha, efeito das lembranças da madrugada. Precisava de uma boa xícara de café e de um banho quente.
O banheiro também tinha vitrais, com o mesmo desenho, mas eram numa porta que dava para o jardim. Uma porta em arco, uma sacada e o jardim...
Muriel sentou-se na borda da banheira, abriu a torneira e enquanto tomava seu café, fixou o olhar na água que ia caindo. Começou a lembrar da noite anterior...
Foi a noite de sua exposição, um apanhado de quadros que pintou enquanto morou na Austrália e que,quando mudou para o Brasil,resolveu vendê-los.
A noite estava um tanto insípida, ela não sentia nada de especial, nem mesmo vontade de ser sociável com as pessoas que estavam lá só por sua causa.
Sua vida estava morna e insípida. Bebia vinho e reparava nas pessoas, suas roupas, as banalidades ditas, os olhares...
Era Jorge quem cuidava de tudo, corria de um lado para outro e conversava efusivamente com os convidados. Gordinho, extrovertido, dono de uma gargalhada ímpar e de uma sensibilidade fora do comum, era seu anjo da guarda e percebia que sua amiga não estava bem. Passava, trazia outra taça de vinho, tentava conduzir a situação e foi ele que a atentou para uma convidada inusitada entre os outros.
Ela estava parada, olhando o quadro que Muriel mais gostava.
Muriel despertou imediatamente de seu torpor e percebeu que a presença daquela moça ali ia contra a toda aquela situação, ia contra ao efeito dos quadros com desenhos gritantes, riscos fortes e setas. A presença dela era suave, seus contornos eram suaves, dignos de uma escultura.
Ela estava ali, não tirava os olhos do quadro e Muriel, por sua vez, não tirava os olhos dela. Um perfil perfeito, o rosto delicado, as mechas de cabelo teimando em escapar do gorro de lã marrom... Estava usando um poncho um tom mais claro que o gorro,com detalhes dourados, mas mesmo assim podia-se ver seu corpo... A calça jeans, a blusa decotada...
Quando Muriel fez menção de ir em sua direção, ela puxou o gorro e virou-se. Os cabelos então emolduraram seu rosto e caíram sobre os ombros, cabelos claros.
A moça então caminhou lentamente em sua direção, esboçava um sorriso familiar, como se a reconhecesse. Parou em sua frente, os lábios entreabertos, prestes a falar alguma coisa, mas os olhos percorriam todo o rosto de Muriel e foram parar também em seus olhos. Um olhar familiar, algo com gosto de alívio, de conforto.
- Beatriz... Eu me chamo Beatriz... Você faz esculturas também?
Nesse momento, Muriel soltou os braços ao longo do corpo e o anel que usava caiu no chão. Beatriz abaixou-se para pegar e não o devolveu, como esperado, colocou-o sobre o balcão, ao lado da taça de vinho.
Muriel fazia esculturas sim, mas há tempos só pintava telas. Não tinha inspiração para esculpir.
Sentiu as palavras saírem de sua boca sem comando e convidou Beatriz para ser modelo de sua próxima escultura.
Beatriz sentiu-se corar, abaixou a cabeça...
-Nunca pensei em ser modelo para uma escultura, acredito que nem tenho perfil para isso, mas precisamos conversar. Se quer me esculpir, precisa saber de mim, não é?
Pegou caneta e papel na bolsa e foi anotando seu telefone, mas Muriel não deixou.
-Você tem tempo agora? Quero saber de você...
-Mas, agora? E a sua exposição? Podemos nos encontrar um dia e...
Muriel não permitiu que Beatriz terminasse de falar, chamou Jorge, falou algo no seu ouvido e ele voltou com sua bolsa, uma garrafa de vinho, duas taças e um sorriso maroto.
Foram as duas para o apartamento de Muriel. No caminho, não trocaram uma palavra. Beatriz observava Muriel dirigindo, a forma como acendeu o cigarro e seu ar despreocupado procurando uma música no rádio. Às vezes se olhavam e sorriam.
Beatriz estava surpresa com sua própria atitude, afinal, fazia as coisas planejadas e nunca entraria no carro com alguém desconhecido. Mas não podia conter, era maior que ela o desejo de estar com Muriel e conversar sobre o que fosse.
Chegaram ao apartamento e Beatriz se encantou logo na entrada, o longo corredor que dava para sala, as frases em francês escritas na parede, o móbile com contas azuis na passagem, o chão da sala de tacos cor mogno.
Muriel tocou suas costas e disse baixinho:
-A bagunça é por conta da mudança, ainda não tive tempo de arrumar, mas a decoração é da antiga moradora, uma senhora um tanto excêntrica. Vendeu o apartamento assim, mas não quero mudar nada.
Havia caixas, livros, telas começadas, tudo espalhado pela casa... Beatriz estava achando tudo perfeito. Tomou a liberdade de sentar-se na cama de Muriel enquanto ela abria o vinho.
Ao fundo, vindo do apartamento de cima, um som de violoncelo... .
Muriel sentou-se, entregou uma taça para Beatriz e por alguns instantes ficou a observá-la: Seus olhos, um verde diferente, uma mistura de vários tons de verde que resultavam naquela cor inebriante. A boca delicada, lábios finos e vermelhos como de uma boneca. O contorno delicado do rosto e para finalizar, duas covinhas que apareceram no sorriso desajeitado que Beatriz deu ao perceber como Muriel a olhava.
Beatriz então começou a explicar, que entrou na galeria por acaso, que na verdade não foram os quadros que chamaram a atenção dela, a princípio, e sim a própria Muriel, que ela viu pelo vidro da porta de entrada. Que o que chamou sua atenção foi aquela moça sentada, alheia a tudo o que estava acontecendo. Que foi aquela cena que fez com que Beatriz entrasse na galeria e começasse a observar os quadros. Muriel ouvia calada, observava cada gesto de Beatriz, a forma como ela passava a mão pelos cabelos, como o vinho tornava a pele do seu rosto ainda mais rosada... Observou o colo de Beatriz, seu decote que deixava à mostra a curva dos seios e as sardas que ela tinha por todo colo e ombros.
-Por que me olha assim, Muriel?
-Ora, estou sabendo de você, afinal, vou esculpi-la!
Caíram na risada e Muriel sentiu-se incrivelmente à vontade com Beatriz. Contou até de seu último relacionamento, uma etapa traumática, uma pessoa difícil, mas que ela já havia superado.
Beatriz também ouvia calada, mas seus olhos se movimentavam num rítimo frenético, querendo observar cada movimento de Muriel. Reparou na pinta que ela tinha pertos dos lábios que tocavam a taça com delicadeza, em seus olhos pequenos e levemente puxados, no nariz afilado.
Ambas deixaram-se envolver pela conversa e aos poucos a vontade do contato começou a transbordar.
Muriel despertou. E antes que a água da banheira realmente transbordasse, fechou a torneira e mergulhou na água quente. Fechou os olhos e lembrou de Beatriz levantando-se, fugindo do desejo que brotou ali.
Esqueceu seu gorro, ficou de voltar na tarde seguinte para combinarem em qual material seria feita a escultura e os outros detalhes.
Muriel lembrou e sentiu o cheiro de Beatriz... Uma mistura de fruta e madeira.
Saiu do banho, vestiu uma calça jeans e uma bata branca. Entrou no quarto que seria seu estúdio. Um quarto onde já havia um tablado e uma espécie de divã, deixado certamente pela antiga dona.
Pensou em mármore, mármore rosa...


4 de jun. de 2008

Insomnie

Para Inaugurar!

Quero inaugurar meu blog com o texto de uma amiga muito querida.

"Antes de tudo, você precisa estar ouvindo essa música quando ler o texto"
  http://www.youtube.com/watch?v=NNfWC4Sgkcs

"Isso é o que você sente quando realmente ouve as batidas do seu coração e se dá conta de que um dia ele irá parar de bater... Isso é o que você sente quando se dá conta de que tudo o que sabe sobre a tua própria existência é apenas sua intuição e que tudo o que achava real não passa de algo efêmero e ilusório e que a realidade, a verdade é algo que você desconhece completamente...


Isso é o que você sente quando percebe que todos os dias você deixa passar algo muito importante e que não está atento o quanto deveria. Que não tem se empenhando de fato e o tempo está passando...


Isso é o que você sente quando entende que a vida que leva está sendo criada por você mesmo e que você é a única pessoa que pode te ajudar e mudar a sua realidade só depende de você e você simplesmente não sabe o que fazer... Isso é o que você sente quando sabe que está se despedindo, por um período muito longo, de alguém que ama...


Isso é o que você sente quando acorda no meio da noite e realmente compreende que está absolutamente só. Que nasceu sozinha e morrerá sozinha e entre esses dois fatos apenas se ilude de que não está só...


Isso é o que você sente quando se dá conta de que definitivamente não faz parte do meio em que vive. É o que sente quando olha tudo a sua volta e pouca coisa faz sentido e você sabe que está ali por alguma razão, mas não tem idéia do que seja...


Isso é o que você sente quando sabe que convive muito menos do que gostaria com as pessoas que ama e muito mais com pessoas completamente diferentes de você. Que você precisa muito aprender algo com essas pessoas e não sabe o que...


Isso é o que você sente quando faz uma longa viagem e sabe que não voltará sendo a mesma pessoa. Que essa viagem irá te mudar completamente. Você vai rever todos os seus conceitos e descobrir que pode suportar muito mais que imaginava...


Isso é o que você sente quando experimenta todo potencial de bondade que há em você e que ao menos uma vez conseguiu não ser tão egoísta e pode ser o melhor que você já consegue ser, mas sabe que apesar de querer ser essa pessoa que você descobriu que pode ser você ainda não consegue sê-la plenamente...


Isso é o que você sente quando sabe que apesar de desejar o melhor para alguém que ama, o que você acredita ser o certo pode não ser o que a pessoa precisa no momento e você entende que só pode aconselhá-la e assistir essa pessoa percorrendo os caminhos mais difíceis, mas que não pode mudar o caminho dela...


Isso é o que você sente quando realmente ouve Rebelion Lies."






Adriana Mani




http://drizzy4all.blog.terra.com.br/